
O surrealismo foi por excelência a corrente artística moderna da representação do irracional e do subconsciente. Suas origens devem ser buscadas no dadaísmo e na pintura metafísica de Giorgio De Chirico. Este movimento artístico surge todas às vezes que a imaginação se manifesta livremente, sem o freio do espírito crítico, o que vale é o impulso psíquico. Os surrealistas deixam o mundo real para penetrarem no irreal, pois a emoção mais profunda do ser tem todas as possibilidades de se expressar apenas com a aproximação do fantástico, no ponto onde a razão humana perde o controle.
A publicação do Manifesto do Surrealismo, assinado por André Breton em outubro de 1924, marcou historicamente o nascimento do movimento. Nele se propunha a restauração dos sentimentos humanos e do instinto como ponto de partida para uma nova linguagem artística. Para isso era preciso que o homem tivesse uma visão totalmente introspectiva de si mesmo e encontrasse esse ponto do espírito no qual a realidade interna e externa são percebidas totalmente isentas de contradições.A livre associação e a análise dos sonhos, ambos métodos da psicanálise freudiana, transformaram-se nos procedimentos básicos do surrealismo, embora aplicados a seu modo. Por meio do automatismo, ou seja, qualquer forma de expressão em que a mente não exercesse nenhum tipo de controle, os surrealistas tentavam plasmar, seja por meio de formas abstratas ou figurativas simbólicas, as imagens da realidade mais profunda do ser humano: o subconsciente.
O Surrealismo apresenta relações com o Futurismo e o Dadaísmo. No entanto, se os dadaístas propunham apenas a destruição, os surrealistas pregavam a destruição da sociedade em que viviam e a criação de uma nova, a ser organizada em outras bases. Os surrealistas pretendiam, dessa forma, atingir uma outra realidade, situada no plano do subconsciente e do inconsciente. A fantasia, os estados de tristeza e melancolia exerceram grande atração sobre os surrealistas, e nesse aspecto eles se aproximam dos românticos, embora sejam muito mais radicais.

Durante os anos seguintes Dali dedicou-se com intensa paixão a desenvolver seu método, que descreveu como “paranoiac-critical’, um método espontâneo de conhecimento irracional baseado na crítica e objetivação sistemática da associação delirante e suas interpretações. Isso possibilitou-o a demonstroar suas obsessões especiais e fantasias combinando formas novas e incrivelmente originais com técnicas pré-existentes. Este é o período de produção de obras como Jogos Lúgubres (1929), A Persistência da Memória (1931) e objetos e esculturas surrealistas, curvas moles, figuras de face dupla com efeito, e outros recursos combinados neste trabalho criavam um universo extraordinário onde o erótico e o escolatólico levam a uma fascinação pelo declínio, o que é refletido em outros trabalhos deste período influcindo seus objetos simbólicos e poemas (La Femme visible, 1930; L’Amour et la mémoire, 1931) e o roteiro para L’Age d’Or (1930).
Todavia, logo tornou-se evidente que havia uma contradição entre o método da “paranóia crítica”, que levaria a pessoa a uma interpretação própria e o automatismo do qual o método depende. Breton formulou ressalvas contra os monstros de Dali, que evocariam apenas uma leitura limitada e uníssona. As posições políticas radicais de Dali, em particular seu fascínio por Hitler, pegaram mal dentro do contexto ético do surrealismo, e suas relações com o resto do grupo diminuiram gradativamente após 1934. A ruptura final veio quando o pintor declarou seu apoio ao ditador Franco em 1939, quando Dali podia orgulhar-se de ser elogiado pelo próprio Freud como o único caso interessante do surrealismo, ainda que o pai da psicanálise confessasse não o ter compreendido totalmente. Aos olhos do público ele foi sendo considerado, cada vez mais com o passar do tempo, o surrealista por excelência, imagem que fez de tudo para manter, junto com sua reputação, através de um exibicionismo exarcebado em todas as áreas.
Sem comentários:
Enviar um comentário